quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Por que nos frustramos?


Uma velha frase já dizia: “a expectativa é a mãe da frustração”. Eu gosto de completar esta frase lembrando que a idealização é sua avó. Mas o que idealização tem a ver com frustração? E mais: o que podemos fazer em relação a ela?

Todos nós experimentamos, ao longo da vida, inúmeras situações em que nos sentimos frustrados. Via de regra, a frustração é um sentimento gerado pela impossibilidade de se obter algo anteriormente pretendido – ou seja, um alvo de nossas expectativas. Isso se aplica desde a mais tenra infância, quando somos bebês, até o auge da vida adulta. Observamos crianças se sentindo frustradas quando, por exemplo, desejam intensamente um brinquedo e este não lhe é concedido. Também vemos adultos frustrados por não terem conseguido uma promoção no trabalho. Ninguém está imune a sentir-se frustrado, mas é nítido que existe uma diferença bem clara entre a maneira de um e de outro reagir emocionalmente à frustração – a chamada tolerância.



Podemos dizer que ao longo das experiências de frustração que um indivíduo tem, sua tolerância vai sendo desenvolvida e ele consegue lidar relativamente bem com as situações causadoras de frustração. Este é o motivo pelo qual uma criança chora por causa do brinquedo que lhe é negado, enquanto o adulto consegue tolerar com mais tranqüilidade as situações adversas pelas quais atravessa. Ou seja, além do estado emocional, a maneira de um indivíduo expressar sua frustração também vai evoluindo com o tempo.

Esta seria a teoria, ou pelo menos o que seria válido para a grande maioria das pessoas. Entretanto, observamos com alguma frequência que existem pessoas que apresentam uma baixíssima tolerância à frustração, e uma expressão inadequada da mesma. É o exemplo de quem sofre tão intensamente quando não consegue algo que chega a deprimir; ou que briga, que grita, que não admite ser contrariado ou aquela pessoa que vai “até as últimas conseqüências” para ter o que quer. Quanto menor a tolerância à frustração de uma pessoa, menor a sua capacidade de aceitar as situações e se adaptar a elas. E o que determina este grau de tolerância à frustração é, via de regra, sua história de vida e as experiências vivenciadas.

Por que a tolerância é tão variável?

De maneira geral, podemos citar 2 grandes motivos para que o nível de tolerância à frustração varie tanto de pessoa para pessoa: o histórico de vida, e a tendência à idealização no estabelecimento dos objetivos. É importante ressaltar que estes dois fatores interagem entre si, um retroalimentando o outro; entretanto, por fins didáticos, vamos falar sobre cada um deles separadamente.

O histórico de vida refere-se com o quanto de privação um indivíduo já experimentou ao longo de sua história. Pode ser que uma pessoa tenha experimentado tantas privações na vida que uma única oportunidade de obter algo desejado é encarada com imensa expectativa. Como quando alguém que sente sede há tanto tempo que, quando vê um copo de água, avança sobre ele sem pensar em nada mais. Ou, na extremidade oposta, pode ser que outra pessoa nunca tenha tido que “passar sede”, e por isso não está acostumada a lidar com o desconforto de sentir necessidade ou desejo de algo.

De maneira geral, estas duas pessoas hipotéticas têm mais chance de lidar mal com a frustração, ou seja, de possuírem menor tolerância. Por outro lado, quando as experiências de frustração ao longo da vida não foram nem demais, nem de menos, mas relativamente equilibradas e bem orientadas pelas pessoas significativas que estiveram próximas (pais, professores, parentes), um indivíduo estará razoavelmente capacitado a lidar com o desconforto emocional causado pela frustração.



A expectativa criada sobre uma determinada situação está diretamente ligada ao nível de frustração experimentado – motivo pelo qual é tida como “mãe” da frustração. O grau de privação, como dito acima, pode ser um fator de ligação, mas o mais comum é que esteja havendo uma forte idealização, ou seja, o ato de fantasiar ou planejar algo de maneira utópica ou muito distante da realidade. Quanto mais distante da realidade um objetivo for, mais difícil fica de alcançá-lo, ou pelo menos o tempo que levará para isso será, sem dúvida, aumentado, ou os esforços terão de ser redobrados. E neste trajeto entre o desejo e a obtenção, a frustração começa a dar as caras.

Grosso modo, portanto, o nível de frustração é diretamente proporcional ao grau de idealização que uma expectativa contém. Isso quer dizer que, para evitar a frustração, deve-se diminuir a idealização. Eis porque tantos programas de organização e planejamento falam em metas reais e mensuráveis – quanto mais realista uma meta é, mais possível ela se torna.

Como lidar melhor com as situações que nos trazem frustração?

Diante do exposto, podemos concluir que, para diminuir as chances de sentir-se frustrado, o caminho mais rápido é a readequação de suas expectativas. Neste contexto, é sempre útil a  reflexão: “neste objetivo ou desejo que estou lidando, estou sendo realista sobre o que pretendo alcançar?”. Muitas vezes, a simples consciência a respeito da importância de traçar metas cuidadosamente já é o suficiente para que a empreitada seja mais bem sucedida.

Mas vezes outras há em que, estando fora de nosso controle, não conseguimos evitar nos sentirmos frustrados, magoados ou mesmo com raiva daquilo que não pudemos obter. Isso vale para quase tudo: a promoção que o chefe negou; uma viagem que não deu certo; uma briga com o marido; um restaurante que deixou a desejar. Diante destas situações, a frustração tende a aparecer, e é importante que saibamos dar vazão aos sentimentos sem nos prejudicarmos ainda mais.

A expressão da frustração também está diretamente ligada à intensidade da emoção vivenciada, porém tem mais relação com o repertório comportamental do indivíduo do que propriamente com a dimensão da experiência vivida. Podemos substituir a palavra repertório por histórico, ou padrão. Uma pessoa acostumada a reagir agressivamente a episódios de frustração carrega em si a tendência a agir desta exata mesma maneira nas experiências subseqüentes que vivenciar.

Um comportamento repetido por diversas vezes torna-se um hábito, e os hábitos comportamentais são, de maneira geral, bastante estáveis ao longo do tempo. Eles são consolidados ao longo da vida conforme o grau de sucesso deste comportamento – se sua maneira de reagir a algo te traz conforto, alívio ou mesmo atenção, é bem provável que você continue a agir assim no futuro.

Isso explica porque algumas pessoas, quando frustradas ou chateadas, comem, bebem, gritam ou ligam para um amigo. Comer, beber, gritar ou falar com alguém traz conforto ou alívio da sensação ruim, e elas permanecem agindo assim enquanto este comportamento funcionar.



Entretanto, há formas que “funcionam”, mas que são bastante desadaptativas – alguém que sempre consegue algo “no grito”, ou passando por cima das pessoas, ou que bebe em demasia, fatalmente uma hora sentirá os efeitos nocivos deste comportamento. Ela pode acabar distanciando as pessoas, criando inimigos, tendo problemas de saúde, ou sentindo tanta raiva que passa a se incomodar com a própria maneira de agir.
 
Diante deste tipo de cenário, é útil pensar em outras formas, mas adaptativas, de lidar com a frustração. Neste sentido, praticar a aceitação é a peça chave do negócio.

Tolerando a frustração

Aceitar uma situação significa, principalmente, parar de lutar contra – e portanto, tolerar o desconforto que está sendo vivenciado, tentando encontrar maneiras alternativas de lidar com ele – tentando encarar a situação por outro prisma, conversando com pessoas que já passaram pela mesma dificuldade, preparando-se melhor para uma futura tentativa. Normalmente, o próprio tempo também ajuda a ir dissolvendo o mal-estar causado pela frustração, e evitar adotar atitudes impulsivas ou imediatistas já pode ser bastante benéfico para quem tem dificuldade em aceitar uma situação desfavorável.

Reagir de maneira alternativa à frustração significa, em última análise, treinar justamente a tolerância – e assim romper um círculo vicioso: quanto mais treinamos a aceitação, mas tolerantes nos tornamos, e quanto mais tolerantes somos, menos frustrados nos sentimos e menos dificuldades teremos em aceitar e nos adaptar às situações adversas.

2 comentários:

Lilian disse...

Gostei muito do texto. Acredito que quanto maior o desejo por algo maior a frustração quando não há sucesso em obtê-lo e que uma das dificuldades de muitas pessoas é saber a hora certa de desistir/substituir o objeto de desejo. Também existe uma grande diferença em se frustrar por não conseguir um cargo muito almejado e não conseguir realizar um desejo mais existencial como ser mãe, por exemplo.

Ana Paula Varella Ferreira disse...

Com certeza, Lílian! Esse seu comentário me leva a pensar nas diferenças existentes entre ACEITAR e se RESIGNAR. Creio que a aceitação nem sempre quer dizer desistir, as vezes como você disse, substituir ou tentar algo novo pode ser a saída. Quantas mulheres, depois de sofrer o luto de não poderem ser mães, optam pela adoção? Desta forma, percebem que podem sim ser mães, mas terão que tolerar a frustração de não ficarem GRÁVIDAS, o que já é algo bem diferente.
Obrigada pelo seu comentário, e volte sempre!