sexta-feira, 10 de maio de 2013

O que esperar da terapia?





Ouço, com frequência, alguém dizer que pensa em fazer terapia cognitivo-comportamental, mas que “não sabe”. Também com alguma freqüência, pessoas que me procuram interessadas em iniciar um processo psicoterapêutico em TCC se dizem preocupadas quanto ao que esperar. Às vezes pessoas me pedem indicações de psicoterapeutas e, quando eu pergunto se de fato foram consultá-lo(a), elas revelam que desistiram - em algum momento entre pegarem o telefone do psicólogo e chegarem ao telefone para contatá-lo.

Essas intercorrências por vezes me fazem pensar sobre o que acontece com os potenciais pacientes que, muitas vezes, jamais chegam a se consultar com um terapeuta cognitivo-comportamental, a despeito de terem tido iniciativas nesse sentido. Onde eles foram parar? O que os levou a desistir?

Eu costumo brincar dizendo que na porta de todo consultório de psicologia existe um “buraco de espera”. Neste buraco, os pacientes podem acabar caindo e permanecendo por meses, às vezes anos, sem jamais tocar a campainha. Às vezes trata-se apenas de um período de “fermentação” da idéia de iniciar psicoterapia. Mas às vezes, este “buraco” se torna um muro, uma parede intransponível, que alguns jamais atravessam.

Recentemente, me dediquei a descobrir o que acontece neste “buraco”, e me deparei com aquilo que, via de regra, permeia nosso cotidiano integralmente: as crenças. Quando recebo um paciente, gosto de perguntar a ele: o que você espera da TCC? O que se revela, com esta simples pergunta, é que os pacientes têm suas próprias crenças sobre o que poderão esperar de uma terapia – o que irá acontecer, como serão as sessões, o que precisarão fazer. E, infelizmente, ocorre que na grande maioria das vezes estas crenças são bastante irreais, ou ao menos pouco razoáveis.

A Psicologia, e em especial a TCC, é uma área complicada, e já passou por inúmeros momentos sociais e políticos. Mas sem exceção, todos os momentos foram marcados por bastante estigma: terapia é para loucos! Terapia é para quem está mal. Pessoas fracas fazem terapia. A terapia muda quem você é. Eu vou ter que contar meus segredos. O terapeuta vai me julgar.

 E em relação à TCC, especificamente: o terapeuta vai mandar em mim. Vou ser domesticado. O terapeuta é alguém frio. A terapia será distante, desprovida de afeto. O terapeuta não tem problemas (essa é ótima). Eu vou falar o que está acontecendo e ele vai me dar a solução. Vou ter que fazer mil lições de casa.
Algumas pessoas ficam desconfortáveis com estas ideias e desistem de procurar uma TCC.  Outras chegam à terapia com expectativas altíssimas e se frustram. Então elas vão embora. As perdemos “para sempre”. Por isso, considero algo imprescindível a INFORMAÇÃO. Romper os paradigmas e as crenças irreais sobre o processo de psicoterapia em TCC é a primeira tarefa que me proponho ao iniciar um processo de psicoterapia com um paciente, e é algo que faço através de materiais simples como folhetos explicativos e muita discussão a respeito.

Conseguir proporcionar um ambiente seguro, em que as expectativas do paciente possam ser moduladas, é um grande preditor de sucesso da terapia, e aqui neste post procurei reunir algumas informações básicas que se propõem a responder a grande pergunta: o que posso esperar da terapia cognitivo-comportamental?



AMBIENTE  SEGURO

Quem procura uma terapia normalmente já se encontra em um processo de tentativa de mudança e, na maioria das vezes, já tentou sozinho modificar coisas importantes. Já leu livros, conversou com amigos, procurou a família, testou possibilidades – sem sucesso ou com resultados aquém do que esperava. Então, vias de regra, o paciente chega ao consultório em um certo “ponto de urgência”, em que se dispõe a pedir ajuda de um “estranho” para modificar sua vida.

Como em QUALQUER abordagem clínica de psicoterapia, é crucial que essa pessoa, que normalmente está sofrendo, sinta-se acolhida e segura. Ela não quer encontrar mais julgamentos – o que ocorre facilmente nas relações permeadas por afeto e por expectativas como amigos e parentes. Muitos pacientes têm medo do que o terapeuta irá pensar, mas essa é uma preocupação desnecessária, apesar de bastante natural.  A terapia deve proporcionar um ambiente de confidencialidade e conforto, um local em que possa se despir de quaisquer máscaras que sinta necessidade de utilizar em seu cotidiano, e o terapeuta responsável deverá adotar uma postura de neutralidade, empatia e aceitação, e de absoluto comprometimento com o processo de mudança.

O terapeuta responsável, seja ele cognitivo-comportamental ou não, cuidará para que o paciente sinta-se bem-vindo, e fará de seu processo uma prioridade durante aquele período semanal em que se encontram. As questões de sigilo e segurança são premissas básicas de todas as abordagens clínicas, que devem permear o processo desde o primeiro encontro, e também devem ser alvo de discussão caso isso se faça necessário. Pacientes com problemas de confiança devem poder relatar seus sentimentos a respeito, e serem incondicionalmente apoiados – ali é o espaço correto para poder falar a respeito.

SOLUÇÕES MÁGICAS x ESFORÇO

Qualquer terapia é um processo a dois. Em TCC, essa condição é elevada ao cubo. Paciente e terapeuta formam uma equipe, cujo principal objetivo é o alcance das metas estipuladas. Para tanto, cada um deverá assumir suas próprias responsabilidades, o que envolve esforço e dedicação. Por vezes, o paciente imagina que, ao colocar seu problema em discussão, o terapeuta terá uma resposta rápida, mágica, brilhante, um exercício de casa ou algo que “ele nunca havia pensado antes”. Essa é uma das crenças mais irreais que existem, mas que é muito fomentada pelos livros e filmes que abordam a temática da terapia.

Na grande maioria das vezes, a “solução” apresentada é velha conhecida do paciente, e muito provavelmente já foi inclusive tentada. O que muda é que o paciente não está mais sozinho em sua jornada: o terapeuta atuará como um técnico, que intervirá tanto para motivá-lo, quanto para ajudá-lo a atravessar os obstáculos naturais do caminho. Em TCC, essa colaboração é um dos aspectos mais fundamentais, um verdadeiro alicerce do processo. A ideia principal é a de que, juntos, podem otimizar o processo de mudança, mas que não é possível retirar o esforço da equação – nem do paciente, nem do terapeuta. Mudar exige empenho, dedicação, persistência e uma grande dose de confiança.

COMPROMETIMENTO

Enquanto equipe, terapeuta e paciente têm um compromisso um para com o outro. Isso significa que, juntos, deverão fazer da terapia uma grande prioridade, algo a ser levado realmente a sério, especialmente em termos de assiduidade, pontualidade e execução de tarefas e exercícios. Muitas pessoas acham esse aspecto algo difícil de lidar a princípio, pois requer que haja um verdadeiro enquadre daquela situação dentro da vida do paciente. A terapia deverá encontrar um espaço dentro de seu dia-a-dia, um espaço constante em sua mente, uma dedicação genuína.

É claro que, como em qualquer compromisso que se assuma, faltas e atrasos são esperados, mas compreender o nível de responsabilidade envolvido num processo de mudança é uma parte fundamental do processo, pois significa, em última análise, comprometer-se consigo mesmo. Da mesma maneira que alguém evitará faltar a uma hemodiálise, por exemplo, ou a um encontro importante por reconhecer a importância que tal evento terá para sua vida e seu bem estar, a terapia deverá ser encarada e priorizada da mesma forma.

Isso também é válido no que se refere às tarefas de casa – uma parte importante e de destaque na TCC. Eu costumo dizer que TCC é 50 minutos no consultório e outros 6 dias, 23 horas e 10 minutos fora dele. Comprometer-se com as tarefas, realizá-las, e manter a terapia “em ação” em seu cotidiano é fundamental para se obter bons resultados. Novamente, é um compromisso consigo mesmo.

TROCA

Muitas pessoas, ao procurarem terapia, se dizem um pouco desmotivadas com a ideia de “falarem o tempo todo”. Elas se perguntam o que tanto irão falar, e no que falar poderá de fato ajudá-las. Muitas sentem-se sozinhas num cenário assim. Especificamente no que se refere à TCC, alguns pacientes sentem-se surpresos quanto à pró-atividade do terapeuta e o diálogo intenso que ocorre em sessão. A bem da verdade, muitos procuram a TCC justamente por já terem se fartado de “apenas falar”.

Talvez devido às características próprias da TCC, é verdade que o terapeuta desta abordagem costuma ser mais dinâmico e participativo. Ele realmente assume a sua parte da responsabilidade, que seja: desafiar e questionar os pensamentos e crenças do paciente com bastante frequência. As intervenções comportamentais são, muitas vezes, sugeridas pelo terapeuta, que através da análise cuidadosa das contingências atuais descritas pelo paciente, observa possibilidades ricas de mudança.

O diálogo em TCC costuma ser intenso, o que poderá causar estranheza a pacientes que venham de outras abordagens clínicas. Com o tempo, entretanto, percebem que o espaço da fala é assim melhor distribuído, e que a fala do terapeuta tem caráter objetivo, já que o propósito da TCC não é apenas catártico (“desabafar”) – e sim de ação e mudança.



EMPATIA, AFETO E ELABORAÇÃO EMOCIONAL

Uma das maiores crenças a respeito da TCC talvez seja a de que o terapeuta é um indivíduo frio e racional, e que não há espaço para emoções na relação terapêutica e no trabalho em TCC. Nada poderia ser mais equivocado – as emoções são uma parte indispensável do processo, uma importantíssima porta de entrada para o mundo da cognição.

Em parte, essa ideia sobre a extrema racionalidade da TCC se deve a que, de fato, são as cognições do paciente o enfoque central de todo o tratamento, inclusive para que resultados possam aparecer mais rapidamente – isso requer mais objetividade e foco. Mas isso não significa, em absoluto, desqualificar ou não dar a atenção devida às emoções, até porque se não fossem as emoções, indivíduo nenhum procuraria fazer terapia.

O paciente que chega ao consultório está normalmente, sofrendo. Esse sofrimento precisa ser acolhido, mas são suas bases cognitivas que serão esmiuçadas. Isso devido às bases teóricas da TCC, que consideram a interpretação dos eventos (e não apenas o que se sente sobre eles) a verdadeira causa das emoções ditas “negativas”, e a chave do processo de mudança. Poderá parecer que a emoção não é o “ponto alto” do processo, mas essa percepção se revelará brevemente infundada quando o paciente entender que seu processo de mudança requererá a compreensão emocional.

Portanto, é claro que a emoção precisará ser trazida à tona no processo terapêutico. Não há mudança verdadeira que não passe por uma mudança emocional. Isso também é verdadeiro no que tange a relação terapêutica, pois são dois seres humanos complexos que estão interagindo e buscando soluções para um sofrimento. Todo processo psicoterápico requer uma relação de confiança e de empatia, ou seja: um vínculo de afeto. O terapeuta cognitivo-comportamental é obviamente empático e acolhedor, porém é, definitivamente, mais objetivo.

PARA RESUMIR...

O que se pode esperar da terapia e, mais especificamente, da TCC?

Um local seguro e acolhedor, onde se desenvolverá uma relação de confiança, afeto e empatia. Um local para ser autêntico e genuíno, pois afinal, para atingir qualquer objetivo, é necessário conhecer bem o ponto de partida. Para tanto, deverá haver objetividade, foco e comprometimento – a “equipe” formada entre terapeuta e paciente trabalhará com afinco, com esforço, em direção às metas estipuladas. Acima de tudo, pode-se esperar que a terapia seja um momento de encontro consigo mesmo, de auto-estudo e de compreensão do próprio funcionamento, de suas emoções e cognições. Pois nos dizeres de Epicteto, grande filósofo e influência significativa da Terapia Cognitiva: “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.”


sexta-feira, 26 de abril de 2013

TÉCNICAS DE CONTROLE DE ANSIEDADE


Como já descrevi em um outro post, a ansiedade é um estado fisiológico, selecionado naturalmente na espécie humana, cuja função é de, basicamente, preparar o organismo para enfrentar um perigo.

A ansiedade patológica ocorre quando este estado está desproporcional à situação enfrentada, ou quando ocorre na ausência de qualquer perigo real. Uma vez que a percepção de perigo depende fundamentalmente do processamento cognitivo do indivíduo, podemos dizer que mesmo uma situação de perigo imaginário (fantasias) é capaz de desencadear respostas de ansiedade em uma pessoa.

Sendo um ou outro caso a situação, em todas elas a ansiedade possui uma manifestação física importante, e os seguintes sintomas estão normalmente presentes:

·         Taquicardia
·         Respiração difícil, curta ou faltando
·         Tremor nas mãos ou em outras partes do corpo
·         Sudorese excessiva
·         Desconforto abdominal
·         Sensação de medo ou perda de controle


O que fazer em relação a estes sintomas?

À parte a recomendação consensualmente aceita de medicação e psicoterapia, existem algumas técnicas bastante simples que podem ser utilizadas a qualquer momento, e que interrompem, relativamente rápido, o estado corporal que a ansiedade provoca. Elas podem ser utilizadas tanto no tratamento dos Transtornos Ansiosos como também em caráter preventivo – aos primeiros sinais de ansiedade ou de desconforto emocional.

 1.       TÉCNICAS DE RESPIRAÇÃO


 RESPIRAÇÃO DIAFRAGMÁTICA


A respiração tem um papel importantíssimo no processo fisiológico da ansiedade, uma vez que a hiperventilação (respiração rápida, curta e superficial, estilo “cachorrinho”) tem o poder de intensificar os sintomas ansiosos. Sendo assim, a solução é fazer  inverso: respirar profundamente, devagar e, de preferência, pelo diafragma.

Experimente enviar o ar inspirado para a região baixa do abdômen, abaixo das costelas. Para auxiliar, você pode imaginar que possui um pequeno balão nesta região, e intencionalmente enviar o ar para preenchê-lo. Colocas a mão sobre a região ajuda também, pois torna possível visualizar o movimento abdominal e assim apontar a respiração correta. Inspire pelo nariz e expire pela boca. Faça séries de 10 respirações, sempre contando e dizendo o número em voz alta, e então iniciando o ciclo respiratório em tempos iguais (por exemplo, 3 segundos para inspirar e outros 3 para expirar).



NOTA: essa respiração utiliza o músculo diafragmático, e portanto é possível sentir algum cansaço durante o exercício. Não se preocupe, pois esse cansaço ou desconforto desaparecerá com a prática. Inicie com 5 minutos (ou 10 repetições) pela manhã e verifique um início de dia mais tranquilo e descansado. Se desejar, utilize qualquer momento favorável do dia para praticar – no trânsito, banho, reunião com o chefe ou em qualquer momento em que sinta-se ansioso.

RECAPTAÇÃO DE CO²

O equilíbrio respiratório depende de um cálculo entre a quantidade de oxigênio inspirado, a quantidade de CO² expirado e o quanto destes gases permanecem dentro do organismo entre uma respiração e outra. Na hiperventilação (respiração cachorrinho), este equilíbrio é prejudicado devido aos altos índices de oxigênio (inspiração ) e baixos índices de gás carbônico (CO²) eliminados na expiração.

Este desequilíbrio produz mal-estar, dor abdominal e sensação de vertigem, o que agrava os sintomas de ansiedade, e reestabelecer este equilíbrio é relativamente simples – a velha técnica de “respirar no saquinho” que tanto vemos nos filmes da TV. De fato funciona: basta expirar pela boca dentro de um saquinho de papel, devagar e pausadamente, e inspirar o ar do próprio saquinho. Faça diversas vezes seguidas, sem tirar a boca de dentro do saquinho.



DICA: na falta de um saquinho (ninguém tem este hábito de andar por aí com um saquinho dentro da bolsa, não é?), coloque uma palma da mão sobre a outra em forma de concha e respire ali dentro. O efeito é exatamente o mesmo.

2. TÉCNICAS DE RELAXAMENTO 

Existem diversos tipos de técnicas de relaxamento, todas com o objetivo de obter, basicamente, um estado fisiológico agradável e de tensões reduzidas. Embora grande parte deles trabalhem tendo em vista uma sensação de tranquilidade e bem-estar, existem pequenas diferenças técnicas que focam em um ou outro aspectos mais específicos.

O Relaxamento Muscular Progressivo  de Jacobson é uma técnica que foca em, principalmente, um aumento da percepção corporal e consequente aumento do controle muscular. Essa percepção corporal mais acurada é especialmente importante para os que sofrem de ansiedade pois permite que  indivíduo perceba os primeiros sinais de tensão e ansiedade, podendo agir muito mais rapidamente e de maneira bastante eficiente no combate à mesma.

Como o próprio nome diz, trata-se de uma técnica de relaxamento progressivo, ou seja, gradativo, por meio da tensão e relaxamento dos grupos musculares. Nos indivíduos ansiosos, é comum que haja muita contração dos músculos do corpo sem real percepção de que isso esteja ocorrendo. Portanto, é importante identificar quais são estes estados musculares (a tensão e o relaxamento) através da indução dos mesmos. Assim, o indivíduo vai, primeiramente, tensionando os músculos, para em seguida, relaxá-los.

Você pode experimentar fazer isso “de baixo para cima”, ou seja, dos pés até o topo da cabeça. Deitado ou sentado, de olhos fechados, vá visualizando cada parte de seu corpo separadamente, e foque sua atenção a cada grupo de músculos individualmente. Por exemplo, a focar sua panturrilha, procure sentir a tensão na mesma – com a perna estendida, contraia a musculatura puxando a ponta do pé para cima e esticando a linha do calcanhar. Permaneça 5 segundos nesta posição, sentindo a tensão do músculo e atentando  a cada parte do corpo envolvida. Perceba como este músculo se relaciona com as coxas, com os joelhos, com os dedos dos pés. Em seguida, solte abruptamente a musculatura e perceba a sensação de relaxamento.



Repita o processo com cada grupo muscular, de ambos os lados, sempre tensionando primeiro e depois soltando abruptamente.  Ao passar de um grupo muscular para outro, certifique-se de que o grupo muscular trabalhado está inteiramente relaxado. Pratique uma respiração calma e profunda durante todo o processo.

Este exercício pode ser feito à sua maneira – ouvindo música, ao ar livre, quando você está tenso ou mesmo quando não há nenhuma ansiedade ou estresse presente. Praticar o relaxamento e aumentar a consciência corporal não apenas é uma técnica útil para enfrentar a ansiedade, como também uma maneira eficiente de ganhar qualidade de vida.

3.       TÉCNICAS COGNITIVAS
 

VISUALIZAÇÃO

Visualize, em sua mente, a situação que o preocupa. Talvez você esteja muito ansioso com uma reunião, uma entrevista de emprego, ou com contas a pagar. Provavelmente, uma cena “preocupante” já passou pela sua cabeça muito antes de você se propor a fazer um exercício de visualização. São as nossas “imagens mentais”, que podem nos causar extremo desconforto, ansiedade, e toda uma extensa gama de sentimentos negativos.

Quando uma imagem mental causa desconforto, nossa primeira tendência é a de interrompê-la. É o famoso “não quero nem imaginar”. Pois a técnica aqui trata-se de justamente IMAGINAR. Não interrompa a cena preocupante – vá até o final. Imagine os detalhes, as cores, os cheiros, as pessoas, os diálogos. Deixa a cena se desenrolar, como a um filme que você assiste. Se sentir-se muito ansioso, pratique a respiração diafragmática enquanto visualiza.

Perceba o que ocorre com a cena: ela chega a um ápice de angústia e então desaparece? Ela termina tragicamente? Diante do resultado, existem algumas opções a seguir:

DESCATASTROFIZAÇÃO

Se sua cena atinge um clímax de ansiedade e então desaparece, é de se supor que você está bloqueando o final da mesma. “Avance o filme” e pergunte-se: o que de pior pode acontecer?  Talvez o final catastrófico seja uma demissão, um rompimento, ou algo bastante ruim. Tente visualizar este resultado e avance o filme novamente: o que aconteceu? Se for preciso, avance anos no tempo. O que aconteceu? O que de pior poderá acontecer?

Normalmente, o que se descobre com este tipo de exercício é que o resultado final pode ser realmente ruim, mas dificilmente é tão ruim que não possamos aguentar. O que ocorre é que, ao interrompermos a imagem em seu pior momento, não temos oportunidade de verificar nossas reais condições de enfrentamento. Somos, geralmente, mais capazes de lidar com os problemas do que acreditamos ser.

Visualizar uma cena até o final nos permite explorar todas as nossas alternativas, e desmistifica o que normalmente concebemos como “o pior”. Uma demissão, por exemplo, pode ser muito desagradável e gerar inúmeros problemas, mas quando você se pergunta “o que de pior poderá acontecer se eu for demitido?”, descobre que poderá arrumar outro emprego, pedir ajuda a amigos, fazer um empréstimo, vender o carro, enfim, alternativas outras que não “passar fome”, por exemplo.

IMAGINAÇÃO DE RESULTADOS

Você pode também interferir “no filme” e alterar o roteiro por trás da sua cena. Pode planejar um diálogo, modificar seu comportamento, criar situações favoráveis e transformar a cena preocupante em uma cena de sucesso.

Se você fica muito ansioso com uma apresentação que irá fazer, ou uma entrevista de trabalho, ou qualquer outra situação em que se sente inseguro, feche os olhos PR alguns instantes e imagine a cena desde o começo. Como você está vestido? Que horas sairá de casa? Como é o caminho? Procure fazer a cena da maneira mais agradável possível, mesmo que sinta interferências de pensamentos negativos.

Imagine o momento “crítico” acontecendo da melhor maneira, seu desempenho da maneira que você gostaria que fosse, a reação positiva das pessoas ao seu redor. Crie com detalhes sua cena agradável: seu tom de voz, as palavras, o ambiente, as perguntas e as respostas. “Volte o filme” e refaça algo que não saiu como gostaria.

Vá até o final “do filme” e termine-o vitoriosamente: visualize seu retorno agradável à sua casa ou ponto de partida e veja sua feição de sucesso. Sinta a sensação de conquista e de satisfação: tudo deu certo e saiu exatamente como você queria!

As técnicas de visualização podem, a princípio, parecer bastante ingênuas e simplórias. Entretanto, são comprovadamente eficientes ao gerar sentimentos positivos (bem como negativos) e auto-confiança. O cérebro é um organismo bastante plástico, dinâmico, no qual a fantasia se equivale à realidade. Pense bem: se uma cena desagradável na sua cabeça é capaz de fazer seu coração acelerar, uma cena agradável também é capaz de tranquilizá-lo.

“E SE ISSO ACONTECER?”

Esta é uma técnica semelhante à descatastrofização, porém em “versão” escrita.

Numa folha de papel, escreva o que lhe aflige. Tente ser sintético e resumir a questão em poucas palavras. Esta é uma etapa em si mesmo muito importante: quando você define o problema, o delimita. Então a questão é “medo de ser demitido”, e apenas isso importa (a cara do chefe, dos colegas de trabalho, da família, enfim, ficam de fora neste momento).

Delimitado o problema, pergunte-se: “e se isso acontecer?”. Novamente delimite o problema e vá fazendo isso até não ter mais alternativas. Novamente você descobrirá que o resultado não é tão ruim assim. Segue abaixo um exemplo:

“MEDO DE SER DEMITIDO”
E se isso acontecer?
“FICAREI SEM DINHEIRO”
E se isso acontecer?
“VOU TER PEDIR AJUDA AOS MEUS PAIS”
E se isso acontecer?
“MEUS PAIS NÃO ME AJUDARÃO. TEREI QUE ARRUMAR OUTRO EMPREGO.”
E se isso acontecer?
“PROVAVELMENTE ARRUMAREI ALGO QUE NÃO GOSTO”
E se isso acontecer?
“POSSO TRABALHAR EM ALGO QUE NÃO GOSTO E CONTINUAR PROCURANDO.”
E se isso acontecer?
“FICAREI INSATISFEITO POR UM TEMPO MAS TEREI O DINHEIRO QUE PRECISO PARA PAGAR MINHAS CONTAS.”

No exemplo acima, fica claro que o final da história, embora não ideal, é satisfatório. Este é o objetivo – desmistificar a previsão trágica do futuro e aproximá-la mais das possibilidades reais que um indivíduo possui.

Estas são apenas algumas das técnicas de controle de ansiedade disponíveis para todos. Você não precisa ser portador de um Transtorno Ansioso para praticá-las, mas pode usá-las no dia-a-dia para ganhar mais qualidade de vida e tranquilidade no seu cotidiano.

Espero que sejam úteis! Qualquer dúvida, não hesitem em escrever: clinica.anapaula@gmail.com

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Laranja Mecânica no CinePsique!


Aos amantes de cinema, fanáticos por Kubrick e apaixonados pela Psicologia, como eu, vai ser um super hiper programa imperdível! Oportunidade de não apenas assistir um filmaço, mas também de discuti-lo com quem entende do assunto!

Quem vamos??

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Por que nos frustramos?


Uma velha frase já dizia: “a expectativa é a mãe da frustração”. Eu gosto de completar esta frase lembrando que a idealização é sua avó. Mas o que idealização tem a ver com frustração? E mais: o que podemos fazer em relação a ela?

Todos nós experimentamos, ao longo da vida, inúmeras situações em que nos sentimos frustrados. Via de regra, a frustração é um sentimento gerado pela impossibilidade de se obter algo anteriormente pretendido – ou seja, um alvo de nossas expectativas. Isso se aplica desde a mais tenra infância, quando somos bebês, até o auge da vida adulta. Observamos crianças se sentindo frustradas quando, por exemplo, desejam intensamente um brinquedo e este não lhe é concedido. Também vemos adultos frustrados por não terem conseguido uma promoção no trabalho. Ninguém está imune a sentir-se frustrado, mas é nítido que existe uma diferença bem clara entre a maneira de um e de outro reagir emocionalmente à frustração – a chamada tolerância.



Podemos dizer que ao longo das experiências de frustração que um indivíduo tem, sua tolerância vai sendo desenvolvida e ele consegue lidar relativamente bem com as situações causadoras de frustração. Este é o motivo pelo qual uma criança chora por causa do brinquedo que lhe é negado, enquanto o adulto consegue tolerar com mais tranqüilidade as situações adversas pelas quais atravessa. Ou seja, além do estado emocional, a maneira de um indivíduo expressar sua frustração também vai evoluindo com o tempo.

Esta seria a teoria, ou pelo menos o que seria válido para a grande maioria das pessoas. Entretanto, observamos com alguma frequência que existem pessoas que apresentam uma baixíssima tolerância à frustração, e uma expressão inadequada da mesma. É o exemplo de quem sofre tão intensamente quando não consegue algo que chega a deprimir; ou que briga, que grita, que não admite ser contrariado ou aquela pessoa que vai “até as últimas conseqüências” para ter o que quer. Quanto menor a tolerância à frustração de uma pessoa, menor a sua capacidade de aceitar as situações e se adaptar a elas. E o que determina este grau de tolerância à frustração é, via de regra, sua história de vida e as experiências vivenciadas.

Por que a tolerância é tão variável?

De maneira geral, podemos citar 2 grandes motivos para que o nível de tolerância à frustração varie tanto de pessoa para pessoa: o histórico de vida, e a tendência à idealização no estabelecimento dos objetivos. É importante ressaltar que estes dois fatores interagem entre si, um retroalimentando o outro; entretanto, por fins didáticos, vamos falar sobre cada um deles separadamente.

O histórico de vida refere-se com o quanto de privação um indivíduo já experimentou ao longo de sua história. Pode ser que uma pessoa tenha experimentado tantas privações na vida que uma única oportunidade de obter algo desejado é encarada com imensa expectativa. Como quando alguém que sente sede há tanto tempo que, quando vê um copo de água, avança sobre ele sem pensar em nada mais. Ou, na extremidade oposta, pode ser que outra pessoa nunca tenha tido que “passar sede”, e por isso não está acostumada a lidar com o desconforto de sentir necessidade ou desejo de algo.

De maneira geral, estas duas pessoas hipotéticas têm mais chance de lidar mal com a frustração, ou seja, de possuírem menor tolerância. Por outro lado, quando as experiências de frustração ao longo da vida não foram nem demais, nem de menos, mas relativamente equilibradas e bem orientadas pelas pessoas significativas que estiveram próximas (pais, professores, parentes), um indivíduo estará razoavelmente capacitado a lidar com o desconforto emocional causado pela frustração.



A expectativa criada sobre uma determinada situação está diretamente ligada ao nível de frustração experimentado – motivo pelo qual é tida como “mãe” da frustração. O grau de privação, como dito acima, pode ser um fator de ligação, mas o mais comum é que esteja havendo uma forte idealização, ou seja, o ato de fantasiar ou planejar algo de maneira utópica ou muito distante da realidade. Quanto mais distante da realidade um objetivo for, mais difícil fica de alcançá-lo, ou pelo menos o tempo que levará para isso será, sem dúvida, aumentado, ou os esforços terão de ser redobrados. E neste trajeto entre o desejo e a obtenção, a frustração começa a dar as caras.

Grosso modo, portanto, o nível de frustração é diretamente proporcional ao grau de idealização que uma expectativa contém. Isso quer dizer que, para evitar a frustração, deve-se diminuir a idealização. Eis porque tantos programas de organização e planejamento falam em metas reais e mensuráveis – quanto mais realista uma meta é, mais possível ela se torna.

Como lidar melhor com as situações que nos trazem frustração?

Diante do exposto, podemos concluir que, para diminuir as chances de sentir-se frustrado, o caminho mais rápido é a readequação de suas expectativas. Neste contexto, é sempre útil a  reflexão: “neste objetivo ou desejo que estou lidando, estou sendo realista sobre o que pretendo alcançar?”. Muitas vezes, a simples consciência a respeito da importância de traçar metas cuidadosamente já é o suficiente para que a empreitada seja mais bem sucedida.

Mas vezes outras há em que, estando fora de nosso controle, não conseguimos evitar nos sentirmos frustrados, magoados ou mesmo com raiva daquilo que não pudemos obter. Isso vale para quase tudo: a promoção que o chefe negou; uma viagem que não deu certo; uma briga com o marido; um restaurante que deixou a desejar. Diante destas situações, a frustração tende a aparecer, e é importante que saibamos dar vazão aos sentimentos sem nos prejudicarmos ainda mais.

A expressão da frustração também está diretamente ligada à intensidade da emoção vivenciada, porém tem mais relação com o repertório comportamental do indivíduo do que propriamente com a dimensão da experiência vivida. Podemos substituir a palavra repertório por histórico, ou padrão. Uma pessoa acostumada a reagir agressivamente a episódios de frustração carrega em si a tendência a agir desta exata mesma maneira nas experiências subseqüentes que vivenciar.

Um comportamento repetido por diversas vezes torna-se um hábito, e os hábitos comportamentais são, de maneira geral, bastante estáveis ao longo do tempo. Eles são consolidados ao longo da vida conforme o grau de sucesso deste comportamento – se sua maneira de reagir a algo te traz conforto, alívio ou mesmo atenção, é bem provável que você continue a agir assim no futuro.

Isso explica porque algumas pessoas, quando frustradas ou chateadas, comem, bebem, gritam ou ligam para um amigo. Comer, beber, gritar ou falar com alguém traz conforto ou alívio da sensação ruim, e elas permanecem agindo assim enquanto este comportamento funcionar.



Entretanto, há formas que “funcionam”, mas que são bastante desadaptativas – alguém que sempre consegue algo “no grito”, ou passando por cima das pessoas, ou que bebe em demasia, fatalmente uma hora sentirá os efeitos nocivos deste comportamento. Ela pode acabar distanciando as pessoas, criando inimigos, tendo problemas de saúde, ou sentindo tanta raiva que passa a se incomodar com a própria maneira de agir.
 
Diante deste tipo de cenário, é útil pensar em outras formas, mas adaptativas, de lidar com a frustração. Neste sentido, praticar a aceitação é a peça chave do negócio.

Tolerando a frustração

Aceitar uma situação significa, principalmente, parar de lutar contra – e portanto, tolerar o desconforto que está sendo vivenciado, tentando encontrar maneiras alternativas de lidar com ele – tentando encarar a situação por outro prisma, conversando com pessoas que já passaram pela mesma dificuldade, preparando-se melhor para uma futura tentativa. Normalmente, o próprio tempo também ajuda a ir dissolvendo o mal-estar causado pela frustração, e evitar adotar atitudes impulsivas ou imediatistas já pode ser bastante benéfico para quem tem dificuldade em aceitar uma situação desfavorável.

Reagir de maneira alternativa à frustração significa, em última análise, treinar justamente a tolerância – e assim romper um círculo vicioso: quanto mais treinamos a aceitação, mas tolerantes nos tornamos, e quanto mais tolerantes somos, menos frustrados nos sentimos e menos dificuldades teremos em aceitar e nos adaptar às situações adversas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Conduta evitativa - o papel da coerção nas emoções negativas




Trabalhar as emoções envolve, necessariamente, trabalhar outra dimensão humana: o comportamento. E embora pareçam esferas antagônicas (o “fazer” do “sentir”), cotidianamente notamos que estes aspectos caminham, via de regra, lado a lado.

A distinção entre sentimento e comportamento parece clara, mas pode se tornar especialmente ardilosa quando o próprio sentir é uma forma de reagir ao mundo. Pois comportar-se nada mais é do que isso: uma ação que acontece diante de um estímulo, qualquer que seja ele. Sob este ponto de vista, pegar um copo de água pode ser um comportamento, mas chatear-se com um comentário do chefe também o é. Sendo assim, podemos dizer que, a princípio, o sentir é uma forma encoberta de se comportar, dado que não é visível e às vezes nem acessível ao outro.

Assim sendo, as próprias emoções são comportamentos – e é por isso que trabalhar as emoções significa trabalhar, intrinsecamente, o comportamento, e vice-versa.

Emoções positivas (alegria, orgulho, satisfação etc) dificilmente são demandas do trabalho terapêutico, ao passo que as emoções negativas (raiva, tristeza, inveja, ansiedade, ciúmes etc) o são. Normalmente, em um momento de crise, são as emoções negativas que estão em jogo, embora frequentemente exista um misto de sentimentos bons e ruins acontecendo. Como podemos compreender um cenário marcado por angústia e sofrimento? Como integrar nossos conhecimentos sobre o comportamento humano ao trabalho emocional?

Antes de mais nada, é interessante frisar que a grande maioria das emoções e sentimentos humanos são inatos, ou seja, nos acompanham desde o nascimento. Na maior parte das vezes, o sentir é uma reação natural do ser humano diante de situações eliciadoras; mas há vezes outras que uma determinada emoção se constitui de determinada maneira por meio de aprendizagem.

A aprendizagem é a principal forma pela qual um ser humano se desenvolve e apreende novos comportamentos. Aprendemos o tempo todo, sem que essa ideia fique restrita aos processos formais de ensino (a escola, um curso, um livro). A aprendizagem está em todo lugar, em todo momento, e se dá através de processos funcionais de interação entre indivíduo e meio-ambiente.

Por funcional¸ quero dizer que é a função de um determinado comportamento que o estrutura como parte de nosso repertório ou não. Agimos de determinada forma, e se esta provocar algum efeito sobre nossas necessidades, ou fizer algum sentido dentro do cenário no qual nos encaixamos, podemos dizer que este comportamento tem altas chances de ser satisfatoriamente aprendido. Se um dia sentimos sede, e ao pegarmos o copo de água e tomarmos, aplacamos nossa sede, tornaremos a fazer isso toda vez que sentirmos sede. Pronto: aprendemos algo. Por que uma determinada criança faz tanta birra com seus pais? Por que é que chora, se joga no chão, grita e emburra quando os pais lhe negam algo? Podemos dizer, caso este seja um comportamento costumaz, que houve um processo de aprendizagem: muito provavelmente, as birras e o choro trouxeram benefícios no passado – o pai comprou-lhe o pirulito, a mãe a deixou ir para a cama sem escovar os dentes – e assim ela utiliza esta conduta como forma de obter determinadas coisas.

Isso vale para quase tudo, incluindo aí o papel das emoções. Todos nós já conhecemos alguém que, através da tristeza, ganha muita atenção de seus amigos ou do cônjuge, ou de alguém que com muita frequência fica bravo e agressivo quando é contrariado. Podemos arriscar dizer que, possivelmente, também estas emoções foram reforçadas (por suas consequências) ao longo da história de vida da pessoa, cristalizando-se, com frequência, como parte integrante do repertório daquele indivíduo.

Embora existam situações excepcionais, em que alguma patologia pode estar instalada (a Depressão enquanto um desequilíbrio químico cerebral, por exemplo), podemos dizer que, via de regra, tanto comportamentos quantos sentimentos são aprendidos. E outra conclusão, a partir daí, torna-se bastante lógica: quanto mais funcional é uma conduta, mais frequente ela se torna.

Aprendemos, portanto, mediados pela consequência de nossos comportamentos. Isso significa obter coisas, mas também significa evitar coisas. É fácil pensar num exemplo: um casal em que, toda vez que há uma briga, um dos cônjuges desata a chorar. Se quisermos entender a função deste choro, é só observar o que acontece imediatamente após: a briga cessa? Talvez o outro cônjuge, sentindo-se culpado, passe a minimizar o conflito e a fazer carinho no parceiro. Ou talvez um espancamento cesse com o início do choro. Se isso ocorre com relativa frequência, podemos inferir de que o choro tem como função esquivar-se da briga, já que põe fim à mesma.

Esquiva é um dos processos humanos mais comuns, e não é arriscado dizer que é um produto muito sólido de aprendizagem através de consequências negativas – a coerção. Coerção é uma forma sutil de descrever uma ameaça: algo ruim se seguirá ao seu comportamento, o que o leva a optar por uma forma bastante específica de agir. Todos nós conhecemos isso: um semáforo vermelho anuncia “PARE”, e um radar ao seu lado nos lembra de que, caso não paremos, tomaremos uma multa. Um pai que ameaça um filho com a retirada de sua mesada também está praticando coerção, assim como o namorado que fecha a cara quando a namorada não atende ao seu pedido também.

A coerção está em todos os cantos, e o ser humano aprende rapidamente a evitar as consequências que são tema da ameaça. O filho passa a comportar-se; o funcionário chega sempre pontualmente ao trabalho, a namorada faz tudo o que o parceiro quer. Adequamo-nos às nossas inúmeras leis também como uma forma evitativa de agir: se não pagarmos os impostos, tomaremos uma multa; se roubarmos algo, seremos presos.
Obediência a regras é uma conduta adequada ao convívio em sociedade, mas não precisamos nos restringir a isso. Existem inúmeros exemplos de condutas evitativas – aprendemos quase que exclusivamente por meio delas. Dificilmente um bom comportamento não foi aprendido por meio de coerção, mesmo aqueles que julgamos socialmente adequados. Um bom aluno que tira notas altíssimas usa, como referência, os sentimentos negativos que sentiu no passado ao tirar uma nota baixa (frequentemente os professores só comentam os resultados negativos de um aluno, e não os positivos). Uma pessoa extremamente solícita faz tudo o que lhe pedem pois sente-se mal ao notar o desapontamento de alguém.

Os últimos exemplos referem-se, como podemos perceber, ao ponto de intersecção entre, novamente, as emoções e o comportamento. Pois se a coerção pode, por um lado, constituir uma forma eficientíssima de aprendizado, por outro ela traz um efeito colateral bastante nocivo: a necessidade de fuga. E quem sente necessidade de fugir jamais está sob a luz de emoções positivas.

Ansiedade, insegurança, medo, tensão e tristeza são emoções bastante características de quem funciona, basicamente, por esquiva. São subprodutos de uma conduta-padrão evitativa, e por isso que, mais uma vez, trabalhar estas emoções significa trabalhar os comportamentos. Nossas emoções são instrinsecamente ligadas à nossa história de aprendizagem, e muitas das ameaças que consideramos atuais, e reais, são na verdade reprodução de situações antigas. Somos, quase que inexoravelmente, produto de nosso passado.

Com mais frequência do que talvez gostaríamos de admitir, nos comportamos de maneira a evitar coisas – conflitos, brigas, desconfortos. E com bastante frequência, também, é verdade que conseguimos evitar tais coisas. Mas muitas e muitas vezes nunca chegamos a nos comportar de outra forma para verificar, diretamente com a realidade, quão reais são determinadas ameaças. Os padrões de conduta dificilmente sofrem “atualizações”, e é como se funcionássemos como discos riscados, evitando todas as consequências negativas que sofremos num passado remoto.

Se por um lado isso significa evoluirmos, no sentido de não mais cometermos atos nocivos a nós mesmos (é ótimo que paremos no sinal vermelho), por outro cria-se a constante tensão em relação a possíveis punições. Nem sempre é adequado agirmos sob a luz do medo e da ansiedade – por vezes a ameaça é imaginária e nós não confrontamos a realidade para testá-la. E se parece óbvio que funcionar pelo medo é uma forma de auto-preservação, é porque todos os meios sociais responsáveis pela nossa aprendizagem (escola governo, família) nos coagiram com intensidade suficiente para que isso se tornasse normal.

Existem outras formas de compreender uma mesma situação, que não seja à luz da coerção? Que outras formas de agir temos à nossa disposição que não sejam evitação?

Padrões de comportamento são funcionais, é verdade, mas também podem ser reciclados e suas funções aprimoradas. Parar no sinal vermelho para não tomar uma multa é bem diferente de parar para manter-se em segurança. O sentimento é obviamente diferente. Tirar notas altas para ganhar uma viagem de férias é igualmente eficiente junto aos adolescentes. Mas em situações mais complexas, especialmente no que tange as relações humanas, o medo da perda e da punição invariavelmente acompanha toda conduta humana.

Quebrar os padrões de comportamento que trazem desconforto pode provocar, por si só, mais desconforto ainda – significa estar aberto e arriscar receber todas as consequências negativas que batalhou-se toda a vida para manter afastadas. Mas se existe uma pequena possibilidade destas ameaças não se concretizarem (e normalmente, nas relações humanas elas são muito mais produto de catastrofização do que de realidade), a quebra do padrão é desejável – e mais do que isso, é necessária.

Viver em função do medo de que algo terrível aconteça, e agir quase que exclusivamente em função disso, é uma ideia contrária ao que conhecemos por qualidade de vida. Esta envolve liberdade, criatividade e espontaneidade, e deve ser perseguida sempre, na medida do possível. Nos comportarmos pensando no que temos a ganhar, e não a perder, alivia as emoções e dá leveza ao cotidiano, além de ser um filtro bastante eficiente para tudo aquilo que deve ser “atualizado” em nossos sistema: conceitos, relações, valores, hábitos.

Descobrir novas funções para nossos comportamentos é uma estratégia segura para que possamos ser cada vez mais autênticos, ficar cada vez mais satisfeitos e estarmos cada vez mais genuinamente em contato uns com os outros. Desfrutar dos benefícios de uma vida bem-vivida, sem os dissabores do medo e da ansiedade, é um direito de todo indivíduo que preza por seu conforto e bem-estar – mesmo que isso possa significar, a curto prazo, algum desconforto inicial.

Descobrir que se pode viver autenticamente, sem medos e culpas, é uma conquista maravilhosa, e perceber que somos mais resistentes às crises e às consequências negativas inevitáveis da vida é um presente. Desmistificar as ameaças que rondam nossa imaginação, e perceber que grande parte delas são de fato apenas imaginárias – eis uma nova e verdadeira forma de se viver em liberdade.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Por que fazer terapia?



Muitas pessoas ficam em dúvida quanto às suas reais necessidades de iniciar um processo terapêutico. Esse “dilema” existe, em parte porque a imagem da terapia está muito associada à do sofrimento intenso, da depressão e da angústia, levando as pessoas a pensarem que, para se fazer terapia, é preciso estar “mal”.

E embora seja a realidade da maior parte das pessoas que procuram um consultório de Psicologia, este não é o único cenário que existe e nem é preciso estar deprimido para buscar ajuda; pelo contrário, podemos afirmar que, quando a depressão e outras patologias se instalam, existia seguramente uma situação prévia de sofrimento que, fosse bem cuidada, não evoluiria para um quadro de adoecimento emocional.

Isso significa, grosso modo, que quanto antes uma pessoa busca ajuda, menores são as chances de desenvolver uma patologia psíquica. Neste ponto, a psicoterapia pode ser, basicamente, preventiva.

Entretanto, a maior parcela da população procura ajuda, realmente, quando as coisas não vão bem. Mas quão “mal” é preciso estar para pedir ajuda? E no que pode auxiliar um psicólogo?

Todos temos, em nossas vidas, momentos de crise. Além de naturais, eles são necessários para o ser humano se desenvolver e crescer, evoluindo como um todo. Através das crises, desenvolvemos habilidades anteriormente inexistentes – como uma criança que, aprendendo a andar, descobre através da queda que é necessária maior firmeza nos pés ou maior retidão no tronco. Através de suas dificuldades, ela vai ganhando novo referencial e, conscientemente ou não, vai estruturando novas maneiras de ser e atuar no mundo.

As crises são, portanto, parte indispensável da existência humana. Assim é o sofrimento que geralmente a acompanha. Ao perdermos alguém, choramos, entristecemos – absolutamente normal. O luto, a tristeza, a angústia, são partes inerentes à vida humana, e dificilmente podemos deles fugir. Entretanto, quando estes assumem um tamanho desproporcional à dimensão da situação de crise, causando um sofrimento contínuo, prolongado e intenso, esta é a hora de pensar em pedir ajuda.

É esperado que o indivíduo enfrente um período de crise e que, após algum tempo, um novo equilíbrio se reestabeleça. Quando esta nova homeostase não é atingida, pode haver um quadro de adoecimento psicológico e, portanto, necessidade de terapia, que assume um formato de tratamento - com método, objetivos e tempo específicos e pré-determinados. Se uma pessoa perde um ente querido, por exemplo, é natural que sinta esta perda e que, pelo menos durante algum tempo, fique emocionalmente fragilizada e entristecida. Entretanto, se após um longo período de tempo esta pessoa ainda está paralisada diante da dor, tendo seu funcionamento global prejudicado (trabalho, vida amorosa, vida social etc), este é um indício de que as habilidades pessoais internas já não são suficientes para enfrentar, organizar e superar a dificuldade vivenciada, podendo então estar configurada uma depressão ou um luto patológico, por exemplo.

Da mesma forma, outras situações menos dramáticas podem levar alguém a sentir necessidade de buscar psicoterapia. É comum que uma pessoa se veja repetidamente diante do mesmo tipo de dificuldade ou que experimente o mesmo tipo de problema com maior frequência do que seria desejado, ou que diante de uma situação problemática tenha muita dificuldade em tomar decisões ou adotar determinadas condutas, ou ainda que se veja em dilemas frequentes e decorrentes conflitos intra/interpessoais por conta disso.

Neste sentido, o terapeuta é alguém alheio à situação, e que, portanto, goza de maior neutralidade e objetividade na identificação e solução de um problema. Ele atua como um “técnico” que ajuda o agora paciente na compreensão de si mesmo, seus comportamentos e sentimentos. Ele também pode ter à disposição ferramentas terapêuticas que são incomuns ao cotidiano de vida de um indivíduo, e técnicas psicoterápicas eficientes na conduta de uma situação de dificuldade.

Dependendo da abordagem terapêutica (“linha”), o processo psicoterápico assume diferentes formatos e objetiva diferentes fins. Tratar uma depressão, controlar um quadro de ansiedade, lidar com um divórcio, enfrentar uma perda, adotar novas condutas no dia-a-dia, aumentar o desempenho profissional, adquirir mais organização diária, perder peso: toda demanda por mudança é uma demanda terapêutica, seja ela comportamental, cognitiva ou emocional.

Muitas pessoas chegam à terapia com problemas bastante específicos, e quando estes se resolvem, percebem que outras questões surgiram enquanto isso. Estas questões podem se tornar novos focos de trabalho, se forem consideradas importantes o bastante para serem analisadas junto ao psicólogo. Outras vezes, nenhuma questão parece relevante o bastante, e o indivíduo pode decidir, juntamente ao terapeuta, por finalizar o processo.

Há vezes, também, que o indivíduo adquire “gosto” pela psicoterapia – sente que se beneficia da mesma ainda que não existam “problemas” a serem tratados. A terapia funciona, assim, como um processo de “higiene mental”, em que os conteúdos diários são verificados e analisados com determinada frequência, como uma espécie de revisão (semanal, quinzenal, mensal) em que o paciente tem a possibilidade de reavaliar suas condutas e possivelmente identificar novas oportunidades de evolução. Nesse sentido, a terapia assume um caráter de manutenção da saúde mental.

Em resumo, fica claro que não é preciso estar “mal” para fazer terapia, e sim que exista algum tipo (qualquer tipo) de demanda, nem que seja a demanda de organizar os próprios pensamentos ao conversar com o terapeuta. Sob este ponto de vista, pode-se fazer terapia pelos mais diferentes motivos, desde que esteja implícito, nestes, o desejo ou a necessidade de mudanças.

Conversar com quem já faz psicoterapia pode ser útil na hora de decidir-se por adotar o processo psicoterápico, e buscar indicações de diferentes profissionais pode ajudar a decidir-se pela abordagem mais eficiente a seguir. O mais importante que é que a pessoa que procura terapia o faça por vontade própria, estando motivada e decidida pela mudança.

sábado, 3 de março de 2012

As Bases Históricas da Terapia Cognitiva

Embora os primeiros estudos de Aaron Beck, considerado por muitos o “pai da Terapia Cognitiva”, datem da década de 60, é possível dizer que as teorias cognitivistas já circulam na humanidade há tempos. Se não como teorias consolidadas e estruturadas, ao menos as ideias principais que a constituem podem ser encontradas, em maior ou menor grau, em diversas obras e no discurso de muitos pensadores ao longo da nossa História.


Aaron Beck, o pai da Terapia Cognitiva.

Grosso modo, a teoria que embasa a Terapia Cognitiva (TC) preconiza que sentimentos e comportamentos têm origem primária nas ideias, ou seja, nos pensamentos e na compreensão que um indivíduo possui sobre o mundo. Isso equivale dizer que a maneira como uma pessoa compreende e interpreta seu mundo é o que, via de regra, determina suas ações e seus estados emocionais.

Esta ideia, defendida por outros inúmeros teóricos (Alfred Adler, George Kelly, Albert Ellis entre outros), está na base dos muitos tipos diferentes de TC, sendo que um ou outro focará mais intensamente em aspectos desta mesma base.

Entretanto, embora se considere a verdadeira genialidade de tantos teóricos em construir modelos de atendimentos psicológicos que englobem tais hipóteses e que ofereça uma estrutura básica pela qual se orientar, é necessário conhecer o que veio antes: as mais antigas raízes do cognitivismo.

Peguemos, a título de exemplo, a seguinte frase do filósofo grego Epictetos, que viveu aproximadamente no século I DC:

“Não são as coisas que nos perturbam, mas a visão que temos destas coisas.”

Ora, trata-se da ideia primordial da TC: a interpretação do indivíduo é o que determinará sua experiência – se boa, se má, se traumática, se prazerosa. A concepção de neutralidade dos fenômenos é mister desta linha de pensamento, considerando que, a priori, nenhum evento possui essência em si, cabendo ao indivíduo defini-lo, de acordo com um sistema individual e bastante particular de crenças e valores.

Epicteto e Seneca, filósofos gregos.

Da mesma forma, dizia Sêneca:
“As coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos reais.”

Mas não apenas no estoicismo grego de Seneca e Epicteto encontramos referências de base da TC. No taoismo, no budismo e em diversas correntes filosóficas orientais, encontramos igualmente linhas de pensamento que defendem a mesma ideia da definição cognitiva dos fenômenos: nosso aparato cognitivo, nossas crenças e nossas visões de mundo são o que definem, em termos de valores, os fenômenos que vivenciamos.

Se, em um protocolo básico de atendimento em TC, parte do trabalho fundamental consiste em auto-monitoramento de pensamento, identificação de erros cognitivos e formulação de pensamentos mais adaptativos e baseados em exames de realidade, o que dizer da seguinte citação, do antigo texto O Sutra da Guirlanda de Flores, que data do século III DC, que diz que “a mente é um artista. Essa mente-artista produz agregados e universos. Tudo são desenhos da mente. Ela pinta seu próprio mundo.” ?

Tal concepção revela-se absolutamente coerente com a ideia da existência de um sistema de crenças, por vezes irracionais ou desadaptativas, que produzem pensamentos e humores negativos, por se pautarem em uma realidade subjetiva e desorganizada, construída pelo próprio indivíduo que a vivencia. E de que, na medida em que este indivíduo responsabiliza-se pela própria transformação e assume maior controle sobre seus pensamentos, sua realidade pode ser modificada, como disse Aaron Beck, em 1982:

“As ideias não só podem controlar os sentimentos mais intensos de uma pessoa, como também são capazes de modificá-los.”

Da mesma forma, o antigo texto indiano Dhammapada, datado de aproximadamente 400 AC, diz: “Tudo que somos é resultado daquilo que pensamos. Uma mente disciplinada conduz à felicidade”. 

Shakkyamuni Buddha, fundador do Budismo.


Outras características básicas das TC’s também se fundamentam em filosofias antiquíssimas. O caráter atual do modelo psicoterápico em TC, por exemplo, baseia-se especialmente na noção de que muitas formas de sofrimento têm suas origens no passado, mas que se atualizam constantemente no momento presente; daí, a noção de que é mais eficiente o trabalho que é focado no aqui-e-agora e nas circunstâncias atuais do indivíduo. Da mesma maneira, as correntes religiosas orientais orientam o foco no momento presente como forma de disciplinar a mente inquieta, que “está sempre ativa, saltitando daqui para lá, sendo difícil de controlar; mas a mente disciplinada é tranqüila; portanto, é bom ter sempre a mente sob controle. Não viva no passado, não sonhe com o futuro, concentre a mente no momento presente” (Shakyamunni Buddha, 560ac – 480ac).

O modelo educativo das TC’s também evoca a ideia de autocontrole e auto-observação, defendida já há muito séculos por diferentes correntes de pensamento. A própria prática da meditação, carro-chefe de inúmeras linhas filosóficas e religiosas orientais, subentende a auto-observação como tarefa principal daquele que busca o auto-conhecimento. E a ciência moderna confirma, através de suas pesquisas, que a meditação equivale ao uso de antidepressivos na prevenção à recaída de um Transtorno Depressivo.

Através deste tipo de revisão histórica, podemos dizer que a humanidade vem re-inventando seus antigos métodos e costumes, resgatando das tradições mais antigas os fundamentos de nossa própria modernidade. Assim como as ciências vêm refutando antigos mitos e crendices – hipóteses de quem ainda não possuía tecnologia suficiente para realmente explicar os fenômenos – hoje podemos ver também uma “reciclagem” de conceitos antigos, que são transportados diretamente para dentro das abordagens mais modernas no que se refere à natureza, ao ser humano e a interrelação de ambos.

Exatamente como nas palavras de Lavoisier (1743 – 1794), em seu Princípio da Conservação das Massas:

“Na natureza nada se cria, e nada se perde. Tudo se transforma.”